miércoles, 23 de febrero de 2011

Poesia: Fernando Pessoa - Antologia - Part 2 - Hora absurda - 4-7-1913 - Em Portugues y Español


Open your mind, your heart to other cultures
Abra su mente, su corazón a otras culturas
You will be a better person
Usted será una mejor persona
RM


Fernando Pessoa

Portugal



HORA ABSURDA
4-7-1913

O TEU SILÊNCIO é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha idéia de ti é um cadáver que o mar traz à praia..., e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte...

Abre todas as portas e que o vento varra a idéia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida p'la maré cheia,
E a minha idéia de te sonhar uma caravana de histriões...

Chove ouro baço, mas não no lá-fora... É em mim... Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...

Hoje o céu é pesado como a idéia de nunca chegar a um porto...
A chuva miúda é vazia... A Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!... Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...

Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há,
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...

Os feixes dos lictores abriram-se à beira dos caminhos...
Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas...
Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas...
E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos...

¡Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
De Longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...

O palácio está en ruínas ... Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada.

A doida partiu todos os candelabros glabros,
Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas...
E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos
candelabros...
E que querem ao lago aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?...

¿Por que me aflijo e me enfermo?... Deitam-se nuas ao luar
Todas as ninfas... Veio o sol e já tinham partido...
O teu silêncio que me embala é a ideia de naufragar,
E a ideia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido...

Já não há caudas de pavões todas olhos nos jardins de outrora.
As próprias sombras estão mais tristes... Ainda
Há rastros de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora
Um como que eco de passos pela alameda que eis finda...

Todos os ocasos fundiram-se na minha alma...
As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios...
Secou em teu olhar a idéia de te julgares calma,
E eu ver isso em ti é um porto sem navios...

Ergueram-se a un tempo todos os remos... Pelo ouro das searas
Passou uma saudade de não serem o mar... Em frente
Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...

Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
Todas as princesas sentiram o seio oprimido...
Da última janela do castelo só um girassol
Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido...

Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Por que não há de ser o Norte o Sul?... O que está descoberto?..

E eu deliro... De repente pauso no que penso... Fito-te
E o teu silêncio é uma cegueira minha... Fito-te e sonho...
Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua idéia sabe à lembrança de um sabor de medonho...

Para que não ter por ti desprezo? Por que não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore... O teu silêncio é um leque-
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...

Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos...
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...

Alguém vai entrar pela porta... Sente-se o ar sorrir...
Tecedeiras viúvas gozan as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há de vir,
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem...

E preciso destruir o propósito de todas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras,
Endireitar à força a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...

Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã — como
nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...

Suave, como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir é uma flor murcha a meu peito...

Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia batismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema - Vitória!

O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...



HORA ABSURDA
4-7-1913

TU SILENCIO es una nao con todas las velas pandas...
Suaves, las brisas juegan en las flámulas, tu sonreír...
Y tu sonreír en tu silencio es la escalera y las andas
Con que me finjo más alto y al pie de cualquier paraíso...

Mi corazón es una ánfora que cae y que se parte...
Tu silencio lo recoge y lo guarda, roto, en un rincón...
Mi idea de tí es un cadáver que el mar trae a la playa...,
y mientras tanto
Tú eres la tela irreal en que yerra mi arte el color ...

Abre todas las puertas y que el viento barra la idea
Que tenemos de que un humo perfuma de ocio los salones...
Mi alma es una caverna henchida por la marea alta,
Y mi idea de soñarte una caravana de histriones...

Llueve oro mate, mas no afuera...En mí... Soy la Hora,
Y la Hora es de asombros y toda escombros de ella...
En mi atención hay una viuda pobre que nunca llora...
En mi cielo interior nunca hubo una única estrella...

Hoy pesa el cielo como la idea de nunca llegar a un puerto...
La lluvia menuda es vacía... La Hora sabe a haber sido...
¡No hay nada mejor como un lecho para las naos!... Absorto
En su alienarse de sí, tu mirar es una plaga sin sentido...

Todas mis horas están hechas de jaspe negro,
Mis ansias todas talladas en un mármol que no hay,
No es alegría ni dolor este dolor con que me alegro,
Y no es buena ni mala mi bondad a la inversa...

Los haces de los lictores se abrieron a la vera de los caminos...
Los pendones de las victorias medievales ni llegaron a
las Cruzadas...
Pusieron infolios útiles entre las piedras de las barricadas...
Y la yerba creció en las vías férreas con fuerza dañina...

¡Ah, qué vieja, esta hora!... ¡Y todas las naos partieron!
En la playa sólo un cabo muerto y unos restos de velas hablan
De la Lejanía, de las horas del Sur, de donde nuestros
sueños sacan
Aquella angustia de soñar más que hasta para sí callan...

El palacio está en ruinas... Duele ver en el parque el abandono
De la fuente sin surtidor... Nadie levanta la mirada del camino
Y siente saudades de sí ante aquel lugar-otoño...
Este paisaje es un manuscrito con la frase más bella cortada...

La loca rompió todos los candelabros glabros,
Ensució de humano el lago con cartas rasgadas, tantas...
Y mi alma es aquella luz que no habrá más en los
candelabros...
¿Y qué quieren, mis ansias, del lago aciago, brisas fortuitas?...

¿Por qué me aflijo y enfermo?... Se acuestan desnudas al luar
Todas las ninfas... Llegó el sol y ya habían partido...
Tu silencio que me arrulla es la idea de naufragar,
Es la idea de tu voz al sonar la lira de un Apolo fingido...

Ya no hay colas de pavones todas ojos en el jardín de otrora...
Las mismas sombras están más tristes... Aún
Hay rastros de vestidos de ayas en el suelo, y aún llora
Un como eco de pasos por la alameda que aquí termina...

Todos los ocasos se fundieron en mi alma...
Toda la yerba de los prados fue fresco bajo mis pies fríos...
Se secó en tu mirar la idea de creerte en calma,
Y ver eso en ti es un puerto sin navíos...

Se alzaron a un tiempo todos los remos... Por el oro de las mieses
Pasó una saudade de no ser el mar... Frente
A mi trono de alienación hay gestos con piedras raras...
Mi alma es una lámpara que se apagó y aún está caliente...

¡Ah y tu silencio es un perfil de pináculo al sol!
Todas las princesas sintieron el seno oprimido...
Desde la última ventana del castillo sólo un girasol
Se ve, y soñar otros trae brumas en nuestro sentido...

¡Ser y no ser más!... ¡Oh, leones nacidos en la jaula!...
Repique de campanas allá, en el Otro Valle... ¿Cercano?...
Arde el colegio y un niño quedó encerrado en el aula...
¿Por qué no ha de ser Norte el Sur?... ¿Lo que está descubierto?...

Yyo deliro... De repente hago pausa en qué pienso... Te miro
Y tu silencio es una ceguera mía... Te miro y sueño...
Hay cosas rojas y cobras en el modo como te medito,
Y tu idea sabe al recuerdo de un sabor que es horrendo...

¿Por qué no tenerte desprecio? ¿Por qué no perderlo?...
Ah, deja que te ignore... Tu silencio es un abanico —
Un abanico cerrado, un abanico que abierto sería tan bello, tan
bello,
Pero más bello es no abrirlo, para que la hora no peque...

Se helaron todas las manos cruzadas sobre todos los pechos...
Se marchitaron más flores de las que había en el jardín...
Mi amarte es una catedral de silencios elegidos
Y mis sueños una escalera sin principio y con fin...

Alguien va entrar por la puerta... Se siente el aire sonreír...
Tejedoras viudas gozan las mortajas de vírgenes que tejen...
Ah, tu tedio es la estatua de una mujer que ha de venir,
El perfume que los crisantemos tendrían, si lo tuviesen...

Es preciso destruir el propósito de todos los puentes,
Vestir de alienación al paisaje de todas las tierras,
Enderezar a fuerza la curva de los horizontes,
Y gemir por tener que vivir, cual brusco ruido de sierras...

¡Hay tan poca gente que ame los paisajes que no existen!...
Saber que seguirá existiendo el mismo mundo mañana — como
nos desalegra!...
Que mi oír tu silencio no sean nubes que entristecen
Tu sonrisa, ángel exiliado, y tu tedio, aureola negra...

Suave como tener madre y hermanas, cae la tarde opulenta...
No llueve ya, y el vasto cielo es una gran sonrisa imperfecta...
Es una plegaria mi conciencia de tener conciencia de ti,
Y mi saberte sonreír es una flor marchita en mi pecho...

¡Ah, si fuésemos dos figuras en un lejano vitral!...
¡Ah, si fuésemos los dos colores en una bandera de gloria!...
Estatua acéfala puesta en un rincón, polvorienta pila bautismal,
Pendón de vencido que tiene escrito al centro este lema —
¡Victoria!.

¿Qué es lo que me tortura?... Si hasta tu rostro en calma
Sólo me hincha de tedios y de opios de ocios funestos...
No sé... Yo soy un loco que extraña su propia alma...
Fui amado en efigie en un país más allá de los sueños...



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